domingo, 10 de abril de 2011

Labirinto

Eu gosto de labirintos. Especialmente aqueles de cores verde-musgo, bem escuros, com muitas voltas, muitas falhas, muitas armadilhas. Especialmente aqueles que me sufocam, que me pressionam, quase me esmagam, que se fecham em torno de mim, tirando minhas forças e minha visão, mas me fazendo gargalhar de satisfação. Os que giram e não param de girar também são divertidos - fica mais complicado. E de repente começo a escutar cochichos que imploram por mim, e alguns pontos começam a brilhar, e eu me torno apenas mais um ser celeste em uma atmosfera infinitamente abafada. Os cochicos tornam-se vozes e logo em seguida gritos. Gritos de socorro, gritos de incerteza. É a minha mente pedindo pra sair dali - urgente. O labirinto está escuro demais, não há mais como achar a saída, diz ele. Confie em mim, vai ficar tudo bem, respondo. A velocidade aumenta, e quanto mais gira mais energia sinto, a ponto de levitar para depois voar e sentir o frescor do vento úmido batendo na minha face. É tão prazeroso... Mas eu agora eu preciso descansar - aterriso e fico ainda mais perdido. É tão gostoso... Corro, salto, giro, bato-me contra as paredes e dou muita risada de tudo isso. A saída? Quem disse que existe?!

"Mas você disse para confiar em você!", reclama.

"Não, nunca confie em mim, nunca confie no que digo, nunca."
.silêncio.
"Ah, eu já te disse que gosto de labirintos?"


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Domingo de sol aqui. Dia de Mauerpark! =)





segunda-feira, 4 de abril de 2011

Uma Sopa

São 10h da manhã e ele está dormindo. Dentro dos seus sonhos ele foge de dezenas, talvez centenas de abelhas. Elas não desistem de persegui-lo por mais rápido que ele corra. E elas fazem um barulho horrível, um 'ZZZZ" ensurdecedor. Agora já são milhares de abelhas, o zumbido fica ainda pior 'ZZZZZZZZZ!'. Ele precisa achar um rio, um lago, enfim, água! Rápido!!

ZZZZZZZZZZZZ!!!

"ZZZZZ!", toca a campainha. Ele demora uma fração de segundos pra se localizar. "Onde estou?! Que dia é hoje?! Tenho aula?!". São centésimos de segundo de agonia e desespero. Mas também são milésimos de segundo de liberdade - nada mais importa, a noção já fora embora, sou apenas um corpo.

Aos poucos o quebra-cabeça vai sendo solucionado. Por algum motivo ele está dormindo no sofá e por algum motivo sua cabeça doi e seu corpo pede socorro. Ah, sim, a noite anterior deve ter algo relacionado com isso. Duas pessoas estranhas entram no apartamento carregando um aspirador em pó e perguntam algo indecifrável para aquela hora da manhã. Ele apenas responde "sim, claro!". Os dois rapazes atravessam a sala, sobem as escadas e ligam o equipamento que carregavam. O zumbido das abelhas era muito mais prazeroso que aquele que agora ouve. Saudades de seus sonhos, quem nunca teve... 

Em apenas 2 minutos, ou menos, o serviço fora feito e os dois figurantes deixam o palco desejando um bom dia ao personagem principal.

O bom dia começou com ele lutando para levantar-se do sofá e sofrendo para chegar ao banheiro. Lá ele senta-se na privada e vê o mundo girar. E como gira, e como dá voltas esse mundo. Com muito sacrifício consegue tomar um banho, mesmo que cada gota de água rasgue sua pele à medida que vai escorrendo pelo seu corpo. Na sua cabeça só há espaço para arrependimentos e promessas de que isso nunca irá se repetir. "Ah, como a vida é sem graça, como tudo é superficial, como as pessoas são sanguessugas, como tudo é lento, arrastado e desinteressante..."

Por fim, devidamente arrumado, percebe que tem fome. Há de comer. É um humano e humanos sobrevivem de alimentos, entre outras coisas. Abre sua geladeira e enxerga pão, ovos, queijo, ketchup e cebolas. Seu estômago manda um recado ao seu cérebro "Isso não! Isso é impossível agora". Ele pensa em como a natureza é injusta, pois ele necessita comer mas ao mesmo tempo não pode, não é capaz. Ah, se todas comidas fossem vendidas em formatos de pílulas, estilo vitaminas ou algo similar, mas contendo todos os nutrientes necessários para o bom funcionamento de nossas habilidades. Tudo seria mais simples e rápido. Claro, teriam aqueles que contestariam essa ideia pois o prazer em comer deixaria de existir. Mas nesse momento o prazer em comer não está em suas prioridades, ele só precisa de algo que o deixe instantaneamente vivo novamente.

Decide vasculhar a geladeira mais uma vez. Atrás das cebolas encontra algo diferente. Tira as cebolas da frente daquele objeto misterioso e se depara com uma sorridente garrafa de vodka. Um sorriso sarcástico, claro. Seu estômago embrulha e implora para mandar algo para fora. Sorte que ele está há algumas horas sem comer, então não há perigo de sujar o chão recém limpo pelos dois sujeitos estranhos. Fechada a magra geladeira, passada as náuseas, uma imagem salvadora e iluminada surge em sua cabeça: daria tudo por uma sopa. Uma sopinha. Bem quentinha, bem cremosa, perfeitamente temperada. Poderia ser de batatas, com fatiazinhas bem macias daquele tubérculo sendo suavemente mastigados pelos seus ferozes e necessitados dentes. Ou então poderia ter pedacinhos suculentos de carne, não importava o tipo, apenas carne. Mas teria que ser pedacinhos pequenos mesmo, tipo guisado, senão seu organismo teria que trabalhar demais pra fazer a digestão. Ah, e se tivesse um temperinho verde pra dar aquele sabor especial, aí sim seria perfeito... Hmm, interessante como as pessoas entram em contradição tão rapidamente. Quem seria tão idiota e insensível a ponto de querer se alimentar apenas de pílulas?!

Partiu, então, em busca de seu idealizado objetivo. E já sabia até onde encontrá-lo! Obviamente seria no restaurante ao lado de seu prédio, pois assim o calvário seria menor. Chama o elevador. Pra variar, ele não está no andar em que nosso amigo se encontra. Aliás, o elevador do seu prédio é capaz de extinguir qualquer probabilidade. Sempre que precisa-se dele no terceiro (e último) andar, ele econtra-se no térreo. Sempre quando necessita-se dele no térreo, ele está no terceiro.

Após longa espera, abrem-se as portas da esperança. Ele entra na caixa metálica e aperta o número "0", que estranhamente significa térreo. O desespero toma conta no espaço de 1m²: havia esquecido sua chave dentro do seu quarto. Teria que voltar, tocar a campainha e acordar seu colega de quarto. Seu colega de quarto ficaria irritado com tamanha afronta e começaria a sabotá-lo. Talvez como forma de vingança tentasse roubar seus pertences, ou então colocasse um vírus em seu computador. Sua vida se tornaria um inferno, teria que procurar outro lugar para morar. Estava completamente perdido...

Ainda no elevador resolve mexer no seu bolso. Ah, a chave estava ali! Incrível! Que alívio... Tenta se lembrar do momento em que a colocou no bolso mas logo desiste. Não faz ideia. "Curioso como às vezes agimos como legítimos robôs", pensa. "São ações meramente automáticas. Não raro até nossos pensamentos seguem determinada programação", conclui desanimado.

Sai do elevador e dirige-se à porta da recepção. Antes é obrigado a passar pelo pátio do prédio e lá observa coisas estranhas. Há pessoas vestidas de noivas, há seres fantasiados de Elvis Presley, há crianças brincando com bola e gritando, há até mesmo câmeras filmando isso tudo. Nada disso chama sua atenção, nada disso tem alguma importância. Mesmo que uma espécie rara de dinossauro passasse na sua frente, ele não daria bola (não que existam muitas espécies de dinossauros não raras nos dias de hoje...). Ele tem apenas um objetivo e está determinado a alcançá-lo. Ele quer - e como quer! - uma sopa.

Já está na rua e caminha para o restaurante vizinho. Ele sabe que esse restaurante tem a fama de ser caro, mas  não deve ser tanto assim, as pessoas costumam exagerar um pouco. Chega na frente do local e lê o quadro escrito a giz: "Promoção - salada por apenas 12 merckels". Doze merckels por uma salada?? O mundo capitalista não é nada justo. 

E assim ele muda seus planos e decide procurar outro lugar que venda sopas por um preço justo, ou, no mínimo, acessível. Caminha pela rua como um zumbi, nada enxerga e nada escuta. A parte humana que um dia existira em seu corpo já não encontra-se mais presente, agora é apenas um animal seguindo seu instinto de sobrevivência. Avista um lugar chamado "Super Sopa". Seu coração bate mais forte, seu cérebro volta a funcionar e a hipotetizar. Certamente naquele recinto eles devem ter todos os tipos de sopa existentes no mercado. Com certeza desfrutará da melhor sopa já degustada em sua vida. Afinal, não é qualquer lugar que possui a coragem e o respeito necessário para auto denominar-se "Super Sopa". 

Aproxima-se do paraíso, entra, checa o cardápio. Peixe e batatas, salmão, peixe especial com batatas, porção grande, porção pequena, bacalhau e batatas, apenas batatas, peixe com cebolas e batatas... ONDE ESTÃO AS SOPAS??? Não existem sopas. Não existe sequer UMA sopa no restaurante chamado "Super Sopa". Tenta entender por que às vezes o ser humano é tão cruel, tão incompreensível com o sentimento dos outros, a ponto de não vender sopas em um lugar em que obrigatoriamente tal negócio deveria ser realizado. Desiste. Sua abstinência de comida e a complexidade de seus pensamentos não o permitem encontrar a resposta. Volta para a rua e continua sua busca ao tesouro.

Segue caminhando pela rua sem destino certo. Durante o percurso acizentado, encontra muitos restaurantes, inúmeras opções, o que significam escolhas a serem feitas. Às vezes escolhas são ruins, escolhas cansam, escolhas doem. Requerem decisões e responsabilidade pelo seu resultado, o que geralmente não é de nosso agrado. Não sabe para onde ir, não sabe onde mais tentar a sorte. Está cansado, pensa inclusive em voltar para casa com a missão incompleta. Continua, entretanto, sua jornada...

"Sopa de batata com pedaços de carne: 4 merckels". Talvez seja uma miragem. Esfrega seus olhos, lê novamente. "Sopa de batata com pedaços de carne: 4 merckels". Se estivesse vivo, se não fosse um zumbi, choraria. Não chora, apenas caminha, mas dessa vez caminha com vontade, com gana. Tudo começa a ficar mais colorido, a vida ganha uma razão de existir. Ah, que dia lindo, que ar maravilhoso! Como é bom estar aqui, olha como aquelas crianças são lindas brincando na grama, que por sinal é incrivelmente verde!!!

Dá passos firmes em direção ao balcão. Não pensa - as palavras apenas saem da sua boca como se seus lábios tivessem vida própria, como se fossem uma máquina. Máquina que são, cometem erros e misturam idiomas diferentes. Perdoável, pois a excitação é grande, é gigante. Perguntam a ele se ele deseja pão para acompanhar a sopa. Seriam eles capazes de tamanha generosidade? Pão com a sopa?! Como o ser humano é bondoso, como é compreensível com os seus similares, sempre entendendo as dificuldades alheias... Claro que ele aceita! Muito obrigado, meu amigo!

De posse do seu bem mais precioso, segurando-o firme com a duas mãos, procura um lugar livre para sentar-se na parte de fora do restaurante, sob sol que infelizmente está coberto por nuvens. Sem dificuldades, encontra um assento. Senta-se. Respira. Olha para sua sopa, admira-a por alguns instantes. Como é bela, como é perfeita, como é viscosa. Agarra sua colher e come. Come como nunca tinha comido antes. Devora. Se pudesse não utilizaria colher, beberia tudo direto da tigeja, sem pudor nem culpa. Controla-se. Vai saboreando cada colherada ao máximo. De vez em quando molha o pãozinho no líquido sagrado e mastiga aquela combinação perfeita com suave ardor. Vai sorvendo cada gota daquela sopa maravilhosa. Sente todos os nutrientes sendo absorvidos pelo seu organismo. Imagina seu coração bombeando com extremo alívio um sangue revitalizado, um sangue vermelho brilhante, para as demais partes de seu corpo. Está realizado, está deliciado e não precisa de mais nada. Está apenas completamente feliz.

Faltam apenas duas colheradas para terminar sua refeição e já se dá por satisfeito. Obviamente irá terminar o serviço, pois não será sacrifício algum. Olha para seu lado e percebe que há uma latinha de Coca-Cola no chão, há uns 5 metros de si. Por algum motivo, a latinha vermelha chama sua atenção. Analisa com maior cuidado e percebe que há uma abelha sobrevoando as redondezas daquele objeto. A abelha efetua alguns rasantes, alguns mergulhos e finalmente toma coragem de aproximar-se do cilindro metálico.

Com toda a calma do mundo, com a suavidade de uma pena, a abelha pousa. Sem pudor nem culpa, ela caminha até a boca da latinha. Ela encontra algumas gotas da sua refeição favorita e as sorve ferozmente, com a intensidade do voo de uma lagarta recém descoberta borboleta. Ela também está realizada. Está apenas completamente feliz.

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E nesse momento, as nuvens cedem espaço ao poderoso brilho do sol. Um horizonte infinito e iluminado fora revelado. Um céu azul e promissor fora encontrado. 

Tudo isso graças a uma sopa.


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domingo, 3 de abril de 2011

On the Other Side

Here we go with my second text in English. This one was created from an idea that my classmate Elena had. We had chosen one song and we wrote something from the 'song inspiration'. The chosen song was The Strokes - On the Other Side (I could embed the Youtube link here if I wasn't living in Berlin. Here in Germany most music videos are blocked due to issues between the record labels and the German YT. It really sucks!). This text also reflects some thoughts that can be found in my last 2 texts, so the Brazilian readers are going to notice some coincidences :)


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He lives in a bubble. It's hard when you can't be seem and when you can't be heard by anyone, even if you shout so loud that you can feel your lungs being smashed inside your painful body.
But the funny thing is that he's not a prisoner from the bubble, he can get out of it whenever he wants - but he never wants.
It's also hard to him to see everything plainly white and black, even though he knows everything around him is so amazingly shiny and colorful. Unfortunately, all he can feel is nothing. It's just a dark and cold cave and all he can do is keep walking alone, dizzy and inert, running in circles, without any direction, with no objectives.
Walk, run, walk... Take care not to get lost in your cave, my friend.

He wants everything. He wants to live right now - he wants to live also the future now.
He wants to learn everything, but he does not want to learn too much - sometimes it can be dangerous. ..
He wants to walk in the clouds - but he doesn't want to walk with no floor in a white forest.
He wants to walk on the street - but he also needs freedom for his feet.

He got lost in his cave. He got stuck in his viscous bubble.
Now he doesn't want everything anymore.
Now he just wants nothing.

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Wake up. There is a nice weather outside.
I know you can get everything you want, and I also know how difficult is when you actually don't know what you really want.
But try to feel it now, open your eyes, breath the fresh new air, you need it sometimes.
Go!


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His bubble had exploded, he felt the joyful water running through his fingers, he smelled the sweet fragrance of an air not too stuffy as before.
Slowly, bit by bit, he was able to see the colors again - first the brown, then the yellow, and finally the blue.
He's on the other side now. It seems that everything reached its maximum fulfillment, all the chains were broken and there is no fear and no doubts anymore. It's just like a sweet colorful explosion bursting out from your veins and reaching everybody surround you with its magical, powerful and ardent spell. Simple like that...

Oh, the other side is so bright, so full of energy, so delicious and exciting...
...At least for a while...
...Because soon the other side will become just another old grey side...


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quinta-feira, 31 de março de 2011

Coisas Boas

Como é ruim só conseguir enxergar o preto e o branco quando as cores são as mais reluzentes já vistas.
Como é ruim sentir o peso do vazio amassando, amassando, amassando...
Como é ruim provar um pouco do doce só pra depois se entupir do amargo.
E como é pior quando o doce estraga e amargo fica.

Como é ruim não conseguir escutar, não conseguir apreciar
Como é ruim poder escutar mas não ter o que admirar
Como é ruim viver em uma bolha, sem poder ser visto, sem poder gritar
E como é pior preferir a bolha a qualquer outro lugar.

Como é ruim caminhar nas nuvens, sem chão, sem direção
Como é ruim caminhar na rua, limitado, sem ação
Como é ruim ser percebido como uma grande ficção
E como é pior perceber tudo como uma grande ilusão.

Como é ruim ser incapaz, tentar conseguir, mas não ter forças.
Como é ruim não compreender, tentar descobrir e continuar não compreendendo.
Como é ruim saber que tudo pode ser colorido, leve, doce, amplo, livre, real, real, real...
Mas como é pior na real não ser nada, na real não estar nada.

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terça-feira, 22 de março de 2011

Agora

Aos poucos vai chegando e ele vai sentindo.
Sentindo sem poder explicar. Até porque não poderia.
Tudo é tão belo e tão agradável, do jeito que sempre quis.
Mas tudo tão vazio e frágil. Apenas um toque e puf - desmancha.
Desmancha e incomoda. Desmancha e irrita.
"Nicht interessant, nicht interessant..."

Tenta fugir pra descobrir. Foge e não descobre.
Pior, foge e se perde. Perde-se profundamente.
A hora é agora, mas onde estão escondidos?!
Talvez o que lhe dizem é verdade, aliás, nunca negou.
Sempre soube, mas sempre teve medo.
"Verrückt! Verrückt!"

Sua noção de tempo já está distorcida.
Quer o futuro sem deixar o presente. Quer demais, quer demais...
Tem medo do depois, tem medo do agora. Teme.
Incapaz e inerte ele tenta e não para de tentar.
Pensamentos distantes vão crescendo, mas é bobagem.
Nunca atingirão a maturidade.
"Achtung! Achtung!"

Aos poucos, aos poucos...
Quer parar de atuar pra amarga plateia.
Quer viver no palco com seus amados.
Todos compreendendo tudo, mesmo sem entender nada.
Tirar as pedras do estômago, um ar fresco para sua pele.
Um ar fresco de primavera.
Ou, melhor, um ar quente de inverno.
É o que precisa.
"Jetzt"

sábado, 12 de março de 2011

New Seas

When she clumsily and ungracefully entered late into the classroom, Adam immediately felt something magically different in the air. Her name was Emily and she had a conspicuously strong Canadian accent, although his amusing way of speaking didn’t let him lie he wasn’t from Australia. Both were in Ireland, putting up with the absolutely unpredictable Irish weather, in order to get a diploma in Arts. Of course they had crossed the world for other reasons as well. They intuitively knew it’s easier to forget and to start anew when you feel the wind being blown smoothly by a different sea. And so they courageously took a risk of revivifying their painfully broken hearts. Weeks of complete fulfillment came. It was just totally pure love and nothing else to care about.

However, June came and in June things tend to change creepily. Adam had to move to Greece. Emily surprisingly had to return to Canada. But they deeply loved each other, so promises were made. He would go to Vancouver incredibly soon. He took forever. She would be passionately waiting for him. Unhopefully, she just waited.

It was a new season. New seasons require fresh air. New seasons require new seas.

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Esse texto foi escrito há quase 2 meses e era um tema ("tarefa", "lição", "dever", pra quem não sabe gauchês) do curso de inglês.

Fiz uma releitura dele hoje e me identifiquei com o meu momento agora. Novos mares e ar fresco, uma nova temporada. Começar tudo do 0, tudo de novo. Dá medo e, sim, é difícil. Mas rapidamente a massa vai tomando forma e as cores ficam mais palpáveis.

Desta maneira, o que me resta é desfrutar de todas as cores e de todas as formas que aparecerem. Desfrutar e esperar. Pois em junho as coisas tendem a mudar lenta porém completamente. Afinal, junho é uma nova temporada, e, acima de tudo, uma nova (mais uma) estação.

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Não, não esperem um texto em alemão daqui 3 meses.

Tchüs.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Frenético.

Carta ao amigo escrita em 31/12/2009:

"che loco,

como twittado hoje por mim:
'2009: louco, veloz, confuso, surreal, intenso, vivo, emotivo, radical, selvagem, lindo, assustador... frenético. ufa.'

foi tudo muito rápido e non-sense e essa última semana ta ainda mais intenso e louco e novo, é como se fosse um resumo do ano.
foi uma explosão de sentimentos e sensações, uma revolução em tudo.
sem dúvida o mais marcante até agora.

e o bom é que 2010 promete ser a mesma coisa multiplicada por 10.

feliz ano novo pra ti, pra nós!"



E foi. Não sei se multiplicado por dez, dois ou vinte, mas foi. Posso repetir todos os adjetivos citados acima. Mais um ano elétrico, recheado, potente.
Janeiro, o mês que não dormi. Trabalho escravo, festa libertadora. E aventuras malucas. Assim sobrevivi sem fechar os olhos e sem, talvez, respirar.
Bons ares vieram em fevereiro com a nossa viagem à Argentina. Lugar bonito, pessoas animadas, histórias para a vida.
Em março retiro minha gravata pela última vez no ano. Agora sim, respiro. E muito, pois o ar é cítrico e o vento é forte. Quando percebi, os primeiros acordes de "Welcome to the Jungle" já estavam sendo tocados na minha frente. Inacreditável - primeiro show do ano. E logo depois já veio o Franz de carona. Bom mês também para começar algo novo, algo que sempre tive curiosidade. Era difícil acordar aos sábados pela manhã, mas ao final das aulas a recompensa era grande. Mais uma vez, não me arrependi de ter arriscado.

Depois, abril e maio. Tudo fica confuso, tudo troca de lugar e a noção de tempo não há mais. Nem outras noções.
Quinta marcha, velocidade máxima.

amigos, laika, combo, open, dj, vômito, aulas (?), bolos de chocolate, ansiedade, vou, não vou, pessoas, amigos, lindos, lindas, grrrs, tepa, gasômetro, cinema, boteco, morte, vergonha, 39, loucura, bebida, porão, independência, colchão da mari, tepa, mímicas, amigos, sono, entusiasmo, setlist, padrinho, moby, perdido, vodka, agonia, sensual, engraçado, arriscado, curioso, coragem, criatividade, medo, satisfação, amor, como é bom, correria, chuva, café, cerveja, xirú, buzina, música, dança, gritos, carro, som, festa, bebida, leve, combo, louco, dança, sensual, perdição, amigos, volta, cuidado, choro, triste, confuso, ressaca, feliz, triste, confuso, confuso, completo, vazio e confuso.

Agora pára. Relaxa. Bem calminho... Respira bem fundo e fecha bem os olhos. Dorme. Isso...
Acordou, abriu os olhos e o outro lado do mundo diz oi pra ti. Tudo novo. É junho. E é verão.
O tão aguardado chegou. Acelera de novo até setembro!

hostel, francesas, alemãs, espanholas, delfin, temple bar,  etienne, daft, aluguel, pj, henrietta, casa, delfin, colegas, amigos, italianos, coreanos, espanhóis, verão, futebol, st. stephens, oscar, paluza, blink, mgmt, venga boys, londres, edimburgo, festas, despedidas. E mais, e mais...

Em setembro recebo a visita da minha irmã e todos juntos partimos pra uma bela eurotrip. Bruxelas, Amsterdam, Paris, Strasbourg, Frankfurt, Nuremberg, Praga, Walkertshofen, Munique (Oktoberfest!), Innsbruck, Verona, Brescia, Milão, Lyon e Paris de novo. Lindo.

Com nossa volta, em outubro, o inverno já estava dando às caras. O tempo começou a escurecer. Começou a andar com mais calma também, mais arrastado... Teve Lady Gaga no último dia pra trazer um ar mais agitado, mas depois o frio tomou conta outra vez.

Em novembro, Dublin começou a me agarrar com mais força e eu senti que poderia ser interessante. E talvez perigoso. Curiosamente foi no mesmo momento que percebi que em 2011 seria hora de honrar as raízes por 3 meses em Berlim. E teve também Foals e Klaxons.

Finalmente, dezembro. Começou com tudo. O show mais bonito que já vi na vida - Arcade Fire. Vampire Weekend e Two Door Cinema Club também não decepecionaram. Kings of Leon talvez. Faz parte...
Estava tudo muito bom, as coisas estavam funcioando dentro de uma engrenagem muito bem elaborada. Nem tanto...
Algumas peças caíram, foram embora (como sempre vão) e nada mais quis funcionar. Nada mais deu certo - muito pelo contrário. Resisti. O quadro colorido da parede desbotou. Resisti. A fumaça tomou conta da minha cabeça. Caí.

Agora já levantei, pois sei que vai começar tudo de novo. E eu quero mais, eu quero tudo. Não sei o que, mas eu quero. E eu to animado, eu to sentindo, eu vou conseguir. É lindo e é forte.

É 2011. Mais um ano que promete intensidade.
Ano novo; ano bom.
Deliciosamente selvagem.
Ou apenas... frenético.

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Prime of my life. O meu prime é agora. E o seu?

?

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Acontece.

Quando leio o que tá escrito no texto abaixo me vem à cabeça:




Acontece.

TEMPO

 Do meu texto Indigestão de maio: "Queria escrever que não sei se o tempo existe. Eu acho que não. Não sei, na verdade. E não to falando de horas, minutos e segundos. Isso eu já sei que não existe."

Vou falar o meio que óbvio, mas hoje eu vi tudo mais claro na minha frente. Veja bem, é bem madrugada e tamo todo mundo voltando de festa:

OK, to voltando de uma festa (já disse isso). Tomei bastante cerveja e tequila. Mas não consegui aproveitar minha festa direito. Fiquei pensando bastante em um assunto (hahahahaha, que exagero).

Tudo começou quando o Paluza disse que ele achava que o lugar em que a gente tava era maior da última vez que ele tava lá. Isso porque da última vez ele tava bem bêbado. Isso fez com que eu pensasse no assunto. É verdade. Quando estamos bêbados percebemos o nosso espaço físico maior. Talvez seja por isso que nos batemos tanto e perdemos a noção de espaço quando alcoolizados. Paluza gênio.

Da mesma forma, sob efeito de bebidas, a nossa percepção de tempo também muda bastante. Pelo menos para mim e para a  maioria das pessoas, ao beber, o tempo passa infinitamente mais rápido. Tem festas que acabam em 10 minutos, por exemplo, quando lembro no outro dia.

Ao analisar esses fatos, pensei que a que era possível mudar a nossa percepção de espaço e tempo. E fiquei com isso na cabeça. Lembrei da fórmula Velocidade = distância/tempo.
Se a distância aumenta e o tempo diminui, logo a velocidade fica constante. Portanto a velocidade seria a variável que rege o nosso mundo.

Entretanto isso não me satisfez. Com a ajuda do Cesar, percebi que com álcool no nosso cerébro a gente percebe tudo mais lento. Então a velocidade não poderia ser constante, pois a gente percebe coisas como o luzes piscantes ou "strobes" com uma velocidade diferente, uma velocidade menor. Isso me incomodou um pouco... Não só o fato da velocidade ser menor, mas também o fato de que aquela luz branca naquele intenso acende/apaga/acende/apaga quase me cegou.

Mas todos tem que concordar que quando bêbados a nossa percepção de espaco aumenta de uma forma diferente do que diminui nossa percepção de tempo. Por exemplo, se a percepção de espaço é "X", o nosso espaço aumenta pra 2x. Entretanto, se a nossa percepção de tempo é "Y", ela diminuiu pra Y/10. A percepção de tempo diminui numa proporção maior do que o aumento do espaço. Enquanto a festa resumiu-se a 10 minutos o ambiente físico dela havia aumentado não mais que 7 metros quadrados (não sei fazer o "m" com 2 em cima nesse teclado)

Deste modo, através de uma complexa manobra matemática, poderíamos isolar o T na fórmula mágica anterior. A fórmula "certa' seria T = D/V, pois. O que muda na gente é a percepção da velocidade. Quando a nossa percepção de velocidade diminui, o tempo também diminui e o espaço aumenta. Quando nossa percepção de velocidade aumenta, a duração do tempo aumenta e o nosso espaço diminui.


Mas qual velocidade seria essa já que velocidade precisa de um referencial? Não, sei. Talvez seja a velocidade da luz. Pessoas mais inteligentes e que conhecem sobre o assunto poderiam me responder.

De qualquer forma, o que importa para mim é o fato de que eu, e nós, podemos controlar o tempo. O tempo não existe da forma que o imaginamos. É apenas uma concepção. E podemos alterá-la!!! Basta alterar a nossa percepção da velocidade da luz... Porém, minha ignorância não permite dizer com quais meios podemos fazer isso aleém do já citado anteriormente =/

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Master of the obvious?!
Sim, são quase 6h da manhã e to voltando de uma festa forte. Esqueça tudo isso!!!
Apaga isso, queima ele, jesus!
Vamos dormir

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Arcade Fire

Foi uma das coisas mais bonitas que já presenciei.
Eu não considerava a banda como uma das minhas favoritas. Gostava sim, bastante, de várias músicas.
Porém nunca tive a oportunidade de sentí-las.
Esta noite eu tive.

Era como um raio, uma explosão. Te atingia por completo, um transe total.
Lindo demais ver a vida sendo esparramada pra fora por tanta gente. Medo, amor, saudade, esperança... Tudo isso sendo libertado a plenos pulmões por almas verdadeiras.
Eu senti. Eu me arrepiei. Eu vi que era sincero, percebi que era possível.
Eles fazem, eles podem... Eu posso!

Um novo conceito de show para mim. Espetáculo Esplêndido Espetáculo.
Algo mais profundo que a visão e a audição e que qualquer outra coisa.
Algo para ser admirado, perdido, morrido, vivido, sentido, queimado, doído e acendido.
Sem culpa, nem temor. Nem arrependimento. Apenas feliz.
Apenas simples assim.


Admirei e penetrei nos arcos. Me perdi. Mas não morri.
Vivi.
Senti e toquei no fogo. Me queimei. Mas não doeu.
Acendeu.

Obrigado.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Entrevista com o Espelho

Abaixo, colo a entrevista na íntegra para vocês:


"Na última semana, nossa equipe esteve na casa de Rodrigo Strassburger, um brasileiro que vive há quase seis meses em Dublin, na República da Irlanda. Rodrigo tem 20 anos e já completou cinco semestres ("ou quase isso", como prefere dizer) do curso de Ciências Contábeis na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. No início deste ano, decidiu trancar a faculdade para buscar "mais uma experiência de vida diferente do comum" e contou com o apoio de sua família e amigos para que alcançasse tal objetivo. Visitamos o apartamento no qual atualmente mora, no coração da capital irlandesa, e fizemos algumas perguntas a ele a fim de descobrir um pouco mais sobre essa sua aventura no outro lado do Atlântico.


Rodrigo, conte-nos um pouco sobre como e por que você decidiu trancar seus estudos no Brasil para encarar essa experiência na Europa.

Bom, eu achava que o momento era esse. Em março de 2009, eu recém tinha voltado da minha primeira experiencia de intercâmbio, na qual morei e trabalhei em Salt Lake City, nos Estados Unidos. Quando eu voltei, eu estava decidido a me concentrar nos estudos, adiantar a faculdade e iniciar uma boa carreira na área de contabilidade. Comecei a me preparar para alcançar esse objetivo e em agosto do mesmo ano fui contratado por uma das grandes empresas mundiais de auditoria contábil.

Infelizmente, a realidade das aulas da faculdade e a realidade do meu emprego não estavam me agradando. Sentia uma profunda insatisfação e uma revolta com tudo que estava à minha volta. Achava as aulas extremamente desinteressantes e o meu ambiente de trabalho um completo inferno. Sabia que não aguentaria aquela situação por muito tempo e que eu não merecia uma vida como aquela. Eu estava sozinho em meio a loucos repugnantes e me sentia totalmente vazio.

Era hora de mudar. Precisava conhecer lugares, conhecer pessoas. Precisava encontrar algo diferente, algo que preenchesse o meu vazio. E eu estava disposto a isso, tinha toda vontade e coragem necessária. Foi então que o Cesar e o Vicente, meus amigos e colegas da UFRGS, surgiram com a ideia de morar por 1 ano na Europa. Eles me convidaram e eu aceitei. Na época do convite eu estava recém iniciando no meu novo emprego, porém eu já estava de saco cheio de tudo. Eu senti que o momento de fazer isso era aquele, era agora ou nunca, uma chance única na vida. A oportunidade apareceu e eu aceitei na hora.


Fale um pouco sobre a sua rotina em Dublin, coisas que você geralmente gosta ou não gosta de fazer e também um pouco sobre a cidade em si.

Bem, o esqueleto do meu dia-a-dia é formado pelo curso de inglês, que começa às 9h45 e vai até às 13h. As aulas são bastantes dinâmicas e divertidas, então não é nenhum sacrifício acordar cedo para ir até a Delfin. Após a aula, a gente se reúne juntamente com o Paluza - no apartamento dele ou no nosso - para fazer o almoço. Levamos umas boas duas horas para preparar, cozinha, degustar e limpar tudo. Temos um cardápio que já está bastante diversificado, variando entre pratos que envolvem receitas com massa e vários tipos de molho, arroz, frango, ovos, coração de galinha, carne moída, peixe, brócolis e outros. Para quem no início sobrevivia apenas de massa, isso já um fenomenal avanço!

Terminado o almoço, agora no inverno possuímos apenas mais cerca de uma hora de luz solar. Esse fato, em conjunto com o frio e a sujeira que é a neve, acaba desencorajando uma eventual saída (ou aventura!) fora de casa. Contudo, quando tenho vontade - ou por necessidade -, acabo dando uma volta pela cidade, indo ao banco, ao supermercado para comprar coisas ou passando pelas lojas da Henry Street pra dar uma olhada. No verão eu costumava ir até o parque St. Stephen`s Green para ler e relaxar na grama enquanto tomava um café, mas agora isso não é mais possível. Então, se eu opto por ficar em casa, eu aproveito meu tempo para ler, estudar, escutar música, escrever para o meu blog, conversar com amigos e ver coisas interessantes ou inúteis na internet. Atualmente estou lendo "On the Road" de Jack Kerouac e também tenho ocupado meu tempo com os cursos que a Universidade de Yale disponibilizou de graça há algum tempo no seu website para aqueles que tenham curiosidade. Os cursos de psicologia, filosofia e música são bem interessantes!

À noite, eventualmente acontecem encontros ou festas com amigos ou colegas de curso em algum pub ou algum jogo de futebol que a gente acompanha pela internet. Caso contrário, eu fico em casa, ajudo na preparação da janta e continuo fazendo alguma das coisas que citei anteriormente. Todas as terças, também há uma oficina de teatro da qual participei durante um mês, inclusive ajudando no backstage de uma peça muito bem produzida. Porém, confesso que durante o mês de novembro tem faltado motivação da minha parte para caminhar por 40 minutos para ir e 40 minutos para voltar sob uma sensação térmica de -5°C.

Enfim, Dublin não é uma cidade muito grande. Isso pode ser um ponto positivo se analisado pela perspectiva de que é possível ir até praticamente todos os pontos interessantes da cidade caminhando. No entanto, realmente não há muitas opções de entreterimento, especialmente durante a temporada de neve. Prefiro muito mais uma cidade como Londres, onde é necessária a utilização do metro para chegar em diversos lugares, mas que, por outro lado, possui um leque de opções infinitmente maior.


Você tem a fama de ser um grande apreciador da vida noturna. Você considera Dublin uma boa cidade nesse quesito?

 Não sei onde vocês conseguiram essa informação! (risos). Mas seja lá quem for o informante, ele não está mentindo. Realmente uma das minhas grandes paixões é sair com os meus amigos para dançar e me divertir em alguma festa com música boa e pessoas legais. Quando eu ainda estava no Brasil, eu tinha a ideia de que as festas em Dublin seriam extremamente melhores do que as que eu frequentava em Porto Alegre. Fiquei bastante desapontado quando percebi que a realidade era bem diferente daquilo que eu havia projetado. Entre os pontos negativos, posso destacar o horário de funcionamento das festas. Elas começam a "bombar" perto de 00h30, mas às 2h30 já estão se preparando para fechar as portas. Duas horas pra mim é muito pouco! Além disso, aqui temos uma espetacular oferta de pubs com boas bandas tocando música ao vivo, mas quando o assunto é festa, balada mesmo, a oferta diminui drasticamente. É bem difícil achar algum lugar interessante para ir.

Olhando por outra perspectiva, talvez eu não considere as festas daqui tão boas quanto às do Brasil por motivos mais subjetivos. Por exemplo, segundo o meu critério, para eu classificar uma festa como excelente eu preciso de apenas três elementos: um grupo de amigos animados, música boa e bebida barata. Aqui em Dublin eu só encontro um lado dessa espécie de triângulo criada por mim: a música boa. Bebida barata é muito difícil, pois a Irlanda é um dos países em que os alcoólicos têm o preço mais alto da Europa. Quanto ao grupo de amigos animados, é também uma questão complexa, pois o nosso círculo de amizades é muito dinâmico. Toda semana grandes amigos, ou potenciais amigos, voltam para seus países de origem, sem que haja tempo suficiente para fortalecer uma relação de amizade mais madura com eles. Logo, fica bastante complicado de eu achar alguém que acompanhe meu ritmo!

Todavia, tudo tem o seu lado positivo, por mais que o lado negativo impere. No caso, com essa experiência, eu vou passar a dar muito mais valor ao que eu tenho na minha terra, não é verdade? Lá eu sei que o meu triângulo vai estar completo!



Você divide o apartamento com outros dois amigos seus. Como está a relação entre vocês três vivendo juntos no mesmo apartamento após tantos meses?

Está muito boa. Antes de virmos para cá, algumas pessoas falavam que, por mais que já fossemos bons amigos, teríamos problemas devido ao longo tempo de convivência. Até agora, felizmente isso não ocorreu e acredito que nem irá ocorrer. Nós nos respeitamos bastante e tudo funciona na base do bom senso. Por exemplo, não possuímos nenhuma espécie de regra ou programa a seguir para decidir quem vai cozinhar, limpar a casa ou lavar a louça no dia. Tudo acontece espontaneamente. Se eu não estou a fim de ajudar na preparação da comida, eu vou ajudar depois na limpeza da cozinha e vice-versa. Não é necessária cobrança entre as partes para que determinada tarefa seja realizada. Essa falta de cobrança e o uso do bom senso evita eventuais brigas ou discussões bobas entre a gente e com certeza é o fator fundamental para a nossa boa convivência.

Há também a questão do "quarto do líder", que é o quarto em que há apenas uma cama e a pessoa pode dormir sozinha. No início, tentamos criar uma regra que dizia que a cada domingo trocaríamos a pessoa detentora do direito de ser o "rei". Entretanto, era muito trabalhoso fazer essa mudança todos os domingos. Depois, tentamos adotar uma espécie de competição cujo vencedor receberia como prêmio o almejado quarto. Porém, se continuássemos com esse método, teria gente que iria conseguir desfrutar da privacidade só agora no mês de novembro! (risos).  Então, com o tempo, acabamos utilizando a regra do bom senso também para esse caso. Quando alguém percebe que já está há muito tempo usufruindo dos inúmeros privilégios que tal quarto pode oferecer, a pessoa oferece essa regalia ao próximo da fila e assim por diante.

Portanto, podemos afirmar que o grupo está fechado, como diriam os jogadores de futebol, ou que a gente é uma família, como diram os BBBs.


Você já conheceu pessoas que você já pode considerar como grandes amigos e de quem você não pretende perder contato no futuro?

Felizmente, posso dizer que sim. Aqui as principais amizades surgem na escola, porém a maioria dos alunos são europeus e vêm para cá para estudar por apenas algumas semanas. Portanto, acabamos criando laços maiores com aqueles que porventura ficam por aqui por um período de tempo maior. É o caso do Rafael Paluza, de Curitiba; a Hyelim Kim, cujo apelido é Lim Lim, da Coreia do Sul; a Sara e o Alex, da Itália, e o Oscar, de Madri.

O Paluza eu conheci por acaso pela internet quando ainda estávamos no Brasil. Tornamo-nos amigos virtuais e quando ele chegou aqui, um mês depois da gente, ele passou a ser um grande amigo nosso, chegando a morar conosco por algumas semanas enquanto procurava um apartamento para ele. Agora ele mora aqui perto e está toda hora enchendo o nosso saco! Com certeza manteremos o contato com ele quando estivermos no Brasil, seja em Porto Alegre, seja em Curitiba ou em outra cidade qualquer.

A Lim Lim é uma coreana que possui um coração enorme. Está sempre de bom humor, ri de qualquer coisa, participa de todas nossas festas, está sempre disposta a ajudar... Enfim, um exemplo de amiga. Além disso, de vez em quando ela cozinha um delicioso jantar coreano para a gente e quase em todo o intervalo de aula ela me dá um chocolate! (risos). Ela disse que gostaria muito de visitar o Brasil, o que eu penso que seria uma experiência muito engraçada e que eu adoraria que acontecesse!

A Sara e o Alex são um casal meio, digamos, exótico. Demoramos um mês para perceber que eles eram namorados, pois o relacionamento deles é estranho assim mesmo. Mas, o que importa, é que ambos são pessoas maravilhosas. Foram excelentes amigos enquanto estiveram aqui em Dublin e, quando visitamos a cidade deles na Itália, eles foram duas vezes excelentes. Mostraram-nos toda Brescia e nos presentearam com uma cesta básica de comida italina, que, claro, é "a única comida que presta no planeta". A Sara virá nos visitar novamente semana que vem e ela pretende ir ao Brasil em 2011, assim como a Lim Lim. Estamos ansiosos para que isso ocorra também!

Já o Oscar foi o cara que mais agitou Dublin e a Delfin na história. Com seu jeito hiperativo, engraçado e companheiro, foi outro grande amigo nosso durante o verão. Não havia final de semana sem festa e quarta-feria sem Diceys quando ele estava aqui. Semana passada, ouvimos uns gritos vindos do lado de fora da casa e, quando vimos, era ele batendo na nossa porta. Ele veio de surpresa passar um fim de semana com a gente. Curtimos bastante e todos nós sabemos que temos um lugar para ficar quando estivermos em Madri e a recíproca é verdadeira caso ele visite Porto Alegre.

Fico muito feliz ao pensar nas amizades que fiz aqui. Isso só deixa mais claro que o mundo é realmente enorme e que podemos encontrar pessoas especiais em qualquer canto do planeta. Meio piegas, mas é a realidade.


No início da entrevista, você disse que no Brasil você sentia que faltava alguma coisa no seu interior. Você conseguiu achar aquilo que você procurava para preencher o seu "vazio"?

Não. E não creio que um dia eu vá achar, pois nem sei o que é! (risos). Falando sério, acredito que o vazio era apenas um estado de extrema insatisfação com tudo e uma vontade enorme de conhecer coisas novas, de sair daquela pacata rotina. Era também uma busca por novas visões que de alguma  forma pudessem agregar ao modo como eu vejos as pessoas e o mundo. Obtive isso no meu primeiro intercâmbio porém precisava de mais visões. Foi viciante. Se o vazio era realmente isso, então eu posso afirmar que encontrei o "recheio", mesmo que eu não tenha percebido do que ele é feito ainda.


Então quer dizer que você se considera satisfeito com essa sua experiência?

Ainda não, pois ainda não colhi seus frutos, mas espero fazê-lo no futuro. Vou explicar: enquanto eu vivia nos EUA e logo depois que eu havia voltado para o Brasil, eu pouco tinha mudado na minha forma de analisar os fatos. Porém a mudança foi ocorrendo aos poucos, ao longo dos meses seguintes. Eu comecei a achar muito curioso o comportamento das pessoas sobre determinados assuntos e passei a indagar muito a "lógica natural" imposta pela socieade em algumas áreas. Foi uma mudança interessante e positiva, no meu ponto de vista. E, na minha opinião, foi resultado da minha viagem. 

No entanto, no momento em que estamos "vivendo a viagem" talvez não sejamos capazes de assimilar tamanha quantidade de novas informações nem a dimensão e a grandeza disso tudo. A mudança vem com o tempo, depois de reflexões, depois de baixar a poeira. Só então torna-se possível analisar os pontos bons e ruins das esferas "vida agora" e "vida fora" e escolher aqueles que melhor se moldam à sua personalidade e à sua percepção de mundo.


Você não sente saudades da sua cidade, da sua família e de seus amigos? Como lidar com isso?

Claro que sinto e acredito que todo mundo sentiria. Porém é preciso ter em mente que a saudade faz parte do momento e o momento vale a pena. Já parei algumas vezes para pensar como seria se eu decidisse voltar para casa agora e percebi que, além da saudade, o que me faz ter vontade de retornar é a curiosidade de ver como as coisas estão na minha "vida real", se é que posso chamá-la assim. A questão é que, por experiência, eu sei que continua tudo praticamente igual. E isso choca bastante a gente nos primeiros momentos pós-retorno, pois temos a noção de que 3 meses ou 1 ano é tempo demais, quando na verdade não é. Foi incrível como eu fiquei em "estado de choque" nas primeiras semanas após o retorno dos EUA. Eu reclamava para minha mãe que estava me sentindo estranho, mas não sabia explicar por que! (risos).

Observando agora, talvez esse meu "estranho" fosse fruto das expectativas que eu tinha de que muita coisa estava diferente, sendo que absolutamente nada havia mudado na minha vida. Por isso eu me esforço pra anular a curiosidade e tento me concentrar nas coisas boas que acontecem ou que podem acontecer por aqui. Quando tudo começa a entrar numa monótona rotina, é hora de criar ou viver algo novo. E é isso que venho tentando fazer.

Por outro lado, anular a saudade é algo mais complicado, senão impossível. O que podemos fazer é minimizá-la através da internet, o que muitas vezes tem o efeito contrário, pois compartilhar bons momentos virtualmente não é nem de perto a mesma coisa do que na realidade. Então a vontade de estar fisicamente ao lado da pessoa de quem tu gosta acaba aumentando! Não há o que fazer, mas, pessoalmente, eu tento manter a ideia de que "um ano passa muito rápido" bem viva na minha cabeça. Talvez adiante para algo.


Para finalizar, quais seus planos para o seu futuro próximo?

Fazer com que a segunda metade da minha viagem seja tão proveitosa quanto a primeira. Já estou bastante ansioso para a próxima semana, pois será a "semana dos shows", um termo bastante criativo criado por mim e pelo Cesar. (risos). Estou muito feliz com a oportunidade de poder ver ao vivo Vampire Weekend, Arcade Fire, Two Door Cinema Club e Kings of Leon. Aliás, esqueci de comentar antes, mas um ponto fortemente positivo a respeito de Dublin é a questão dos shows. Aqui temos inúmeras oportunidades para presenciar as melhores bandas do momento. Muito provavelmente 2010 será o ano em que eu mais terei ido em shows na minha vida. Bom, nunca se sabe, né? Mas é o que tudo indica...

Para o final de ano, já estamos com tudo reservado para passar o Reveillon em Londres, o que também será um momento inesquecível. Eu amei a semana que passamos na Terra da Rainha em setembro e fico muito animado ao pensar que poderei aproveitar mais alguns dias por lá. E durante o ano novo ainda por cima! Demais!

Durante os dois primeiros meses de 2011, vou me concentrar em terminar meu curso de inglês e curtir meus últimos momentos na Irlanda, pois em março irei para Berlim. Decidi mudar meus planos iniciais e ir estudar alemão em um curso intensivo na capital germânica por três meses. Essa ideia surgiu após visitar o país em outubro e ter gostado muito do que vi. Somou-se a isso o fato de que tenho um forte interesse pela língua alemã e também o apoio dos meus pais, para que assim eu pudesse concretizar mais esse sonho. Acredito que será mais uma vivência impagável e creio que Berlim tem muito mais a minha cara do que Dublin. Vamos ver. Vamos viver!

Finalmente, em junho voltarei para Dublin por alguns dias para dar um adeus para os amigos que aqui ficam e, em seguida, se nada mais sair dos seus trilhos, eu viajarei de volta para o Brasil.


E pro futuro a longo prazo?

Sinceramente? Não sei. Não faço a mínima ideia... São tantas coisas que podem acontecer que é sempre bom deixar uma página em branco para poder escrever quando a vontade e a necessidade aparecem."


Dublin,  29 e 30 de novembro de 2010



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Essas Coisas

1

Essa ilusão
Essa paixão
Essa certeza
Essa saudade
.
Essa surpresa
Essa queda

2

Essa tentativa
Essa esperança
Essa força
Essa luta
.
Essa inércia
Essa dor

3

Essa falta
Essa dúvida
Essa ausencia
Essa amargura
.
Essa realidade
Essa desilusão

4

Essa dura certeza...
...
...que faz com que eu fique mudo diante de tanta necessidade de falar. Que faz com que minhas esperanças percam suas cores e fiquem desbotadas em frações de segundos. Que faz o gelo da neve prevalecer sobre sua maciez. Que faz com que eu tenha que repensar e recomeçar sem ao menos lembrar do ponto de partida.
Porque nesse caso 1 é pouco e 2 é ruim. E 3 aí é demais.

5

Ainda tem muita coisa e isso me deixa feliz. Um bolo quase já se foi. Mas ainda tem um inteirinho esperando por mim. E talvez nesse tenha uma cereja bem grande, bem doce e suculenta. Só não posso esquecer de degustá-la com calma, pois depois ainda tem a parte misteriosa porém poderosamente revigorante e duradoura.
Ah, essas festas...

domingo, 28 de novembro de 2010

Delfin is Different

Grande parte da minha vida aqui em Dublin é preenchida pelo meu curso de inglês, então nada mais justo do que falar um pouco sobre a nosssa escola, a Delfin. Para começar, Delfin não é uma palavra em inglês, mas sim do vocabulário espanhol. Significa golfinho (meigo, não?!). Bom, talvez essa preferencia do diretor pela língua espanhola seja a responsável pelo incrível número de alunos vindos daquele país. Isso pode ser visto como um ponto negativo, pois - como eu já disse noutra oportunidade - o sotaque deles é, no mínimo, irritante. Porém, creio que se a maioria dos alunos fosse formada por outros brasileiros - como ocorre em diversas escolas de inglês aqui -, daí sim eu iria ficar decepcionado. Viajar 16 horas de avião para estudar numa escola lotada de pessoas do mesmo país? Não soa ser uma experiência muito emocionante... Portanto, "Viva España!"

Sobre a aula em si eu não tenho nada a reclamar. Apesar de já ter vindo para cá com uma boa bagagem e experiência da língua, toda semana eu aprendo muita coisa nova, especialmente em termos de vocabulário. Claro que algumas das novas palavras são um tanto quanto inúteis e provavelmente eu nunca vou usá-las e com o tempo serão apagadas da minha memória pra dar espaço pra coisas mais proveitosas. É o caso de Chiropractor, que traduzindo seria o nosso famoso "quiropraxista". Bom, com certeza a culpa é minha e eu sou muito alienado, mas eu não sabia da existência dessa palavra/profissão até semana passada. E, mais importante, não sabia que inclusive a Unisinos possui um curso de Quiropraxia (informações obtidas com o Vico)! Agora estou muito curioso pra conhecer um quiropraxista pessoalmente...  Enfim, esse exemplo também demonstra o quão frustante é quando a pessoa não sabe o significado da palavra em inglês e pede ajuda pro dicionário. Só que ao olhar a tradução do dicionário ela também não compreende o termo em português! É um excelente modo de conhecer a frustração um pouco mais de perto.

Agora o que realmente faz da Delfin diferente não são as boas aulas, boa estrutura, colegas do mundo inteiro, etc. O que eu acho mais legal são os funcionários, o diretor e as atividades extra-classes. Não raro são realizadas festas no próprio prédio da escola, com a presença de todos alunos e de todo staff. Todo mundo alegremente alterado e feliz. O diretor principalmente; geralmente ele merece o troféu etílico da noite. Essa relação de amizade entre todos é que faz da Delfin diferente, sem nenhum rastro de autoridade ou algo do tipo (meigo de novo, não?!).

O ápice da "legalzice" da Delfin foi durante essas duas últimas semanas, quando os professores começaram a distribuir "Delfin Dollars" para quem tivesse um bom rendimetno nas aulas. Essas estalecas poderiam ser trocadas por cerveja na última festa da escola que ocorreu em um pub! É um sistema revolucionário e digno de um estudo aprofundado. Creio que a adoção de tal medida por todas as instituições de ensino iria contribuir para um aprendizado de maior qualidade por parte do aluno. Estudaríamos por prazer! Não é lindo?! Não bastasse essa caridade do diretor, no dia da festa ele deve ter gasto uns bons 500 euros apenas por pagar diversas cevas pra todo mundo que quisesse e depois ele ainda foi pra outra festa com a galera. Ah, esqueci de mencionar o nome dele. É Gareth o nome da figura. Grande exemplo de pessoa. Admiro.

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Esse foi um breve resumo sobre como é a nossa escola de inglês aqui em Dublin. Para maiores informações vocês podem acessar a entrevista que o Cesar e o Vicente fizeram para um blog. Porém, tenham cuidado na leitura. Interpretações equivocadas já renderam discussões internacionais. Segue o link: http://www.vidanairlanda.com/2010/10/estudar-na-irlanda-delfin-english-school.html







segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Poder de uma Boa Câmera

Temos que cuidar com o que vemos. Às vezes uma boa produção faz com que coisas horríveis melhorem bastante o seu visual. Se eu não tivesse escrito o texto abaixo, agora eu poderia perfeitamente mentir para vocês, dizendo que tudo foi maravilhoso e ninguém iria duvidar.

Segue o vídeo da campanha Scrooges da Sony para este Natal em Dublin:




Achei bem legal o resultado.
Deu até vontade de sofrer mais uma vez!
Interessante...

domingo, 14 de novembro de 2010

Scrooge - Apenas um relato para futura leitura

Dormir a 1h30 e acordar às 4h30 de uma segunda. Madrugada escura, gelada e úmida, pra variar. Eu, Cesar, Vicente e Paluza caminhamos por uma Dublin obviamente muda. Na O`Connell pegamos um táxi até o Hampton hotel. No caminho, o Sr. Taxista puxou o clássico assunto que sempre é puxado com brasileiros - "e o que aconteceu com a seleção de futebol de vocês, hein?". Na verdade, com o fim da Copa fazia tempo que alguém não tocava nesse tema, mas ele sempre surge de tempos em tempos. Afinal, no Brasil só existe futebol, carnaval, praia e macacos (esse último conceito revelado pela nossa simpática vizinha polonesa durante a festa de aniver do Cesar). Como  sobre carnaval o pessoal não entende bem, praia é algo distante demais para eles e macacos não estão contidos no caderninho de possíveis assuntos dos taxistas, sobrou o futebol. E o tempo.

Chegamos no hotel animados, pois nos disseram que teríamos um café da manhã. E realmente tinha! Tinha uma térmica com bastante café passado... E só. Bom, eles disseram que teria café e cumpriram, que legal. Após tomarmos o nosso delicioso café da manhã, começamos a vestir a nossa fantasia. Uma fantasia muito bem elaborada e de extrema complexidade - praticamente um lençol branco com mangas e algo branco  - que no caso seriam as meias do nosso personagem - pra cobrir os tênis  A fantasia era completada por um gorro branco com uma espécie de mullets - também branco - que tínhamos que grampear atrás do tal gorro. Depois passamos pra sessão de maquiagem, na qual fomos submetidos a um tratamento intensivo de tinta branca (óbvio) com alguns detalhes em outras cores. E pra finalizar, pra deixar tudo perfeito, tinha a barba  de coooooor... . . . branca. Igual à famosa barba do Papai Noel. Aí é que começa o problema.  O nosso personagem não era o Papai Noel, e sim o Scrooge.

O Scrooge é o personagem principal do livro "A Christmas Carol", escrito em 1843 por Charles Dickens. Na história, Scrooge é um homem frio, duro e de mau humor que não gosta de Natal, assim como o Grinch. Só pensa no seu trabalho e em ganhar dinheiro e também não gosta de pobres. Ao longo da história - a qual só li o início pois o importante era saber as características do Scrooge - várias coisas acontecem e no fim o final é feliz e traz à tona o famoso "espírito natalino", pois, não se esqueçam, a história é sobre o Natal. Há também inúmeros filmes sobre a história, sendo que o último foi lançado em forma de animação pela Disney, com Jim Carrey dublando nosso querido amigo rabugento.

Depois desse parágrafo explicativo, corta a cena e voltemos pro Hampton Hotel. Como vocês devem ter percebido, nosso figurino era algo bastante exótico. Além de nós 4, havia mais 36 pessoas  (90% formado por brasileiros falidos em terras irlandesas) com a mesma fantasia. Seríamos divididos em grupos de 10 e sairíamos pelas ruas de Dublin com um jornal na mão que promovia uma promoção da Sony. Porém teríamos que interpretar o personagem também, então deveríamos falar coisas como "Bah, besteira!", "Eu odeio o Natal!", "Abaixo ao Natal, blabla" e andar com um ar de revoltado. "Então, animados e confiantes, viramos os Scrooges e fizemos muito sucesso na cidade!!!"

Rebubinando a fita. Algo não está batendo. A nossa fantasia era péssima, Parecia-se com tudo, menos com o Scrooge. Instruções adequadas não nos foram concedidas - não sabíamos como agir em diversas situações e nem o que falar. Estas frase anti-natal a gente pegou por conta própria lendo o livro ou vendo vídeos. O líder do nosso grupo era mais perdido do que a gente, era comum ele não saber pra onde ir. O jornal que a gente segurava pecava pela falta de destaque à promoção. Não havia nada que identificasse a marca Sony a não ser um "Sony" perdido entre outras palavras na machete do jornal fake. Simplesmente jogaram a gente no meio da rua com uma roupa e maquiagem que assustava pela feiura e disseram "façam o que tem que ser feito! uhuul!". Uhul.

Agora sim. Vamos de novo... "Então, ainda um pouco animados e sem confiança alguma, viramos algo que não era o Scrooge e fizemos sucesso pela cidade. Por motivo de piada, claro.". Era evidante que não daria certo.

Pra começar, apenas 15% das pessoas reconheciam quem a gente era. O que a gente mais ouvia era:
- "Quem são vocês?"
- "São Papais Noeis?"
- "Oi Papel Noeeel!" - por crianças pequenas
- "Buáááá!" - por crianças pequenas
- "Vocês são elfos ou algo do tipo?" - Nerds
- "Dumbledore!!!" - fãs de Harry Potter

E quando a gente revelava nossa identidade a resposta era uma cara de espanto. Dava pra ler na mente da pessoa "coitados...". Após o problema identificação, surgia o problema propósito. Por que a gente tava fazendo aquilo? Qual era o motivo? Principais enganos:
- Achei que vocês tavam fazendo um protesto contra o Natal
- Achei que fosse um daqueles negócios de combinar pela internet de fazer algo maluco
- Pensei que era pra arrecadar dinheiro ou algo do tipo
- Ah, mas então vocês não são retardados?!

Assim que, finalmente, explicávamos que era uma promoção da Sony, as pessoas respondiam "que legal, conte-me mais". Porém a gente não sabia mais, pois o mais não nos foi explicado. Não tínhamos noção de como funcionava a promoção, então pedíamos que perguntassem ao nosso líder de grupo, um grande sabichão irlandês. Sabichão... Saaaa.bichão. Rá!

Enfim, foram 8 horas de muita caminhada. Em alguns momentos eu ficava louco - pois louco sou, - e conseguia encarnar o personagem de maneira bem convincente. Saía gritando pela Henry Street que odiava o natal, fingia brigar com um amigo imaginário no orelhão, mantinha o contato visual com as pessoas, etc. Mas aos poucos fui cansando disso tudo, pois percebi que ninguém tava nem aí pra nada. Então mudei de personagem. Inspirei-me no sol que temos agora por essas terras: tímido, breve e escondido.

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Como deu pra perceber, o texto foi convenientemente finalizado, pois estava achando um saco escreve-lo.
Entretanto, vale a pena ressaltar que o Cesar foi vítima de duas agressões: um guri e depois uma guria Irish deram um soco no jornal que ele estava segurando. Porém o jornal estava na frente da cara dele. Um bom jeito de terminar seus 19 aninhos. Mas não tão bom como começar seus 20 #casodobox